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21 de outubro de 2011, às 19:42h

Cazuza – O Poeta Está Vivo

Filho do produtor fonográfico João Araújo e da costureira Maria Lúcia Araújo, Agenor de Miranda Araújo Neto nasceu no dia 4 de abril de 1958, no Rio de Janeiro. Já em sua infância, vivida no bairro de Ipanema, o pequeno Agenor esteve em constante contato com a música brasileira: inserido no ambiente profissional do pai, ele cresceu em volta de grandes artistas da MPB, como João Gilberto, Caetano Veloso, Elis Regina e Gilberto Gil. Além disso, o garoto foi influenciado pelas canções melancólicas de Cartola, Maysa, Dolores Duran, Noel Rosa e Lupicínio Rodrigues, até que tomou gosto pela poesia e passou a escrever letras e poemas, que mostrava à sua avó materna.

O jovem Agenor não se dava bem com seu nome, herdado do avô paterno. Ele sempre preferiu seu apelido, inspirado numa vespa de ferroada dolorosa: Cazuza, que no Nordeste brasileiro também siginifica “moleque”. Ele só aceitaria seu nome depois de descobrir que um de seus compositores prediletos, Cartola, também se chamava Agenor.

Na adolescência, Cazuza manifestou o espírito rebelde e a atitude roqueira que marcariam sua imagem pelo resto de sua intensa vida. Suas noitadas regadas a sexo, drogas e rock n’ roll obrigavam seu pai a livrá-lo de prisões e fichas na polícia, e sua postura expansiva e assumidamente bissexual chocava sua mãe. Em 1976, preocupado em manter o filho longe de arruaças, João Araújo lhe arranjou um trabalho na gravadora Som Livre, no departamento artístico e posteriormente na assessoria de imprensa da empresa.

Mas Cazuza não se satisfazia em nenhuma dessas ocupações; ele chegou até a cursar fotografia na Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, e ensaiou uma carreira de fotógrafo, mas ainda não era o ofício que o realizava profissionalmente.

No início da década de 80, o jovem Agenor, ou Cazuza, como preferia ser chamado, finalmente encontrou uma atividade que o satisfazia. Ao ingressar no grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone, ele descobriu seu potencial como intérprete musical. Ciente do talento de Cazuza, o cantor Léo Jaime convidou o rapaz para comparecer a um ensaio do Barão Vermelho, banda de rock que estava apenas começando e precisava de um vocalista. Em 1981, Cazuza se apresentou a Roberto Frejat, Dé, Guto Goffi e Maurício Barros – os jovens que compunham o Barão Vermelho – e surpreendeu a todos com sua postura performática, atitude roqueira e os vocais berrados, ideais para o rock cru de garagem que o quarteto fazia. Naquele momento, nascia uma das maiores bandas do rock brasileiro e uma das parcerias mais produtivas da música pop nacional: Frejat e Cazuza.

Impulsionado pelas composições de Cazuza, cujos carisma e personalidade extrovertida fizeram-no se tornar líder da banda, o Barão Vermelho deixou as versões cover de lado e rapidamente desenvolveu seu repertório próprio. Descobertos pelo produtor Ezequiel Neves, os garotos convenceram José Araújo, o pai de Cazuza, que naquela época era presidente da gravadora Som Livre, a lançar um disco do grupo. “Barão Vermelho” e “Barão Vermelho 2"″ foram os primeiros passos de uma carreira brilhante. À frente do Barão, o jovem cantor representava o frescor da nova geração de músicos e compositores brasileiros, oferencendo à juventude um rock genuinamente nacional com sua atitude ousada, suas performances intensas, e suas letras honestas e de forte apelo entre os jovens. “Pro Dia Nascer Feliz”, “Bete Balanço” e “Maior Abandonado” foram alguns dos sucessos do Barão que se tornaram verdaderos hinos dos anos 80.

Depois da conquista do sucesso e o estouro nas rádios, as diferenças entre os integrantes do grupo se ressaltaram, e os desentendimentos entre Cazuza e os outros passaram a ser constantes. A correria dos shows e a agenda sobrecarregada de compromissos como ensaios e entrevistas pressionavam os rapazes e acalouravam os ânimos na banda. Em julho de 1985, alguns meses depois de uma bem-sucedida apresentação no festival Rock In Rio, Cazuza anunciava sua saída do Barão Vermelho, buscando maior liberdade para compor e se expressar musicalmente. A banda continuaria sob liderança do guitarrista Roberto Frejat.

Naquele mesmo ano, Cazuza seria internado num hospital carioca com infecção bacteriana. Na ocasião, o músico exigiu que fosse feito um teste de HIV, mas o resultado fora negativo. Esse tipo de diagnóstico ainda não era muito preciso naquela época. Em novembro de 1985, Cazuza estreia sua carreira solo com o disco “Exagerado”, que trouxe composições feitas em parceria com outros amigos do cantor, como Lobão (“Mal Nenhum”) e Leoni (“Exagerado”), e lançou uma das canções mais marcantes de sua carreira: a apaixonante “Codinome Beija-Flor”.

O segundo disco solo de Cazuza, “Só Se For a Dois”, foi lançado pela Polygram em março de 1987, e já trazia indícios do amadurecimento profissional e da evolução artística do jovem poeta. No repertório, canções como a dançante “O Nosso Amor a Gente Inventa (Estória Romântica)” e a romântica faixa-título, além de “Ritual” e “Solidão Que Nada”, garantiram os elogios da crítica especializada e da crescente legião de fãs. Porém, apesar de atingir o ápice de sua carreira como cantor e compositor, o carioca descobre que é portador do vírus HIV, após um novo exame que havia requisitado.

Em outubro daquele ano, Cazuza é internado numa clínica do Rio de Janeiro para tratar de uma pneumonia, e em seguida viaja para Boston, nos EUA, onde fica durante dois meses, submetido a um tratamento à base de AZT, um dos primeiros medicamentos que surgiram para combater a AIDS. Quando volta ao Brasil, o cantor põe a mão na massa novamente: seu terceiro disco solo, “Ideologia”, foi lançado em 1988, e consagrado como uma das obras mais vigorosas e contundentes do rock brasileiro, com canções como “Faz Parte do Meu Show”, que flerta com a bossa nova; “Brasil”, um hino urbano em ritmo de samba; e a faixa-título, que fala sobre alienação, desilusão e ainda faz referência à AIDS.

Em 1989, é lançado “O Tempo Não Pára”, registro ao vivo desta turnê em disco e VHS, contendo a intensa canção homônima, um dos maiores clássicos do repertório do músico carioca. O álbum se tornou o maior sucesso comercial de Cazuza, ultrapassando a marca de 500 mil cópias vendidas.

Em fevereiro de 1989, Cazuza assumia publicamente ser soropositivo. Numa época em que a prevenção da doença ainda não era tão difundida, este foi um ato de extrema importância conscientizadora para a sociedade, especialmente porque se tratava da primeira personalidade brasileira a fazê-lo. Assumindo uma postura serena, o músico não se deixa lamentar pelo inevitável, e passa a aproveitar o tempo que ainda lhe restava para compor compulsivamente. O álbum duplo “Burguesia” foi o último de sua meteórica trajetória, gravado quando ele já estava numa cadeira de rodas.

Cada vez mais abatido e fragilizado pela AIDS, Cazuza é novamente levado aos Estados Unidos em outubro de 1989, e fica internado até março de 1990, no mesmo hospital de Boston. Em 7 de julho daquele mesmo ano, não resistindo aos danos causados pelo vírus HIV, Cazuza morre. Era o fim de uma vida intensa, de uma carreira brilhante. Aos 32 anos, o jovem Agenor deixava familiares, amigos e fãs desolados com sua trágica partida. Seu enterro foi acompanhado por mais de mil pessoas, e seu caixão foi levado à sepultura pelos ex-companheiros do Barão Vermelho – Roberto Frejat, Maurício Barros, Dé e Guto Goffi -, que ainda dedicariam uma música ao velho amigo, “O Poeta Está Vivo”, presente no disco “Na Calada da Noite”.

Como diz a canção-tributo do Barão, o poeta ainda está vivo. Suas composições lapidaram o rock nacional dos anos 80 e construíram uma sólida base de influências para os roqueiros adolescentes das gerações seguintes. O poeta sempre estará vivo porque seu legado é imortal – suas poesias, músicas e álbuns serão apreciados eternamente.

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18 de outubro de 2011, às 15:00h

Simplesmente Elis

A primeira vez que o mundo ouviu uma nota vocal de Elis Regina Carvalho Costa foi no dia 17 de março de 1945, em Porto Alegre (RS), quando nascia aos prantos aquela que seria considerada a maior cantora brasileira de todos os tempos.

Desde cedo, Elis Regina, ou "a Pimentinha", como seria apelidada por Vinícius de Moraes, demonstrou afinidade com o universo musical. Já aos 11 anos de idade, em 1956, o dom de cantar aflorava em sua voz doce, que a tornou destaque do elenco fixo do "Clube do Guri", programa infantil da Rádio Farroupilha de Porto Alegre. Três anos depois, a jovem Elis assinou seu primeiro contrato profissional, firmado com a Rádio Gaúcha, para se apresentar no tradicional "Programa Maurício Sobrinho".

Aos 16 anos, Elis Regina canaliza seu talento precoce no álbum "Viva a Brotolândia", de 1961, lançando em seguida o disco “Poema de Amor”, em 1962. No ano seguinte, a revelação gaúcha esbanjou inspiração ao produzir seu terceiro LP, “O Bem do Amor”. Elis conquistava respeito no mundo dos “grandes da música brasileira” e, no final daquele mesmo ano, abandonava o segundo ano colegial na escola Diogo de Souza e com ele os planos de se tornar uma professora, focada em sua ascendente carreira musical.

Em março de 1964, a Pimentinha deixa sua terra natal e se muda para o Rio de Janeiro, onde assina um contrato com a TV Rio para se apresentar no programa “Noites de Gala” ao lado de nomes como Wilson Simonal, Jorge Ben e o Trio Iraquitã. Não demora muito e a jovem cantora é levada por Dom Um Romão, um dos grandes compositores da bossa nova, para as refinadas noites musicais da cidade. Ainda em 1964, a cantora conheceria o produtor Solano Ribeiro, que mais tarde organizaria o I Festival de Música Popular Brasileira na TV Excelsior, vencido pela própria Elis e sua interpretação da canção “Arrastão”, de Edu Lobo e Vinícius de Moraes. Solano foi o primeiro namorado da gauchinha, num relacionamento conturbado que se desmanchou depois de um aborto realizado às escondidas por ela.

Em 1965, a ousada cantora se une a Jair Rodrigues para lançar o álbum “Dois na Bossa”, que foi tão bem recebido pelo público (se tornou o primeiro disco brasileiro a vender um milhão de cópias) que a TV Record decidiu contratar a dupla para estrelar o programa semanal “O Fino da Bossa”. A essa altura, a gauchinha detinha o maior cachê do showbusiness brasileiro.

O ano de 1968 marcou a investida de Elis numa carreira internacional, com apresentações nas TVs sueca, inglesa, holandesa, suíça e belga. Em Paris, naquele mesmo ano, a revelação brasileira se apresentaria duas vezes no Teatro Olympia, uma marca inédita no local, segundo noticiou a revista “Veja” de 23/10/68.

Ao longo do traumático período da ditadura militar no Brasil, instaurada em 1964, o temperamento forte de Elis não a deixou se sentir intimidada e a cantora sempre aproveitava a exposição na mídia para criticar o governo totalitário. Sua interpretação emocionante de “O Bêbado e a Equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc, consagraria esta canção como o “hino da anistia”. O ano de 1969 foi especial para a gaúcha: nasceu João Marcelo, seu primeiro filho com o produtor musical e compositor Ronaldo Bôscoli. O matrimônio firmado em 1967 terminaria em 1972, e dois anos depois, Elis se casaria com o pianista César Camargo Mariano, com quem teve mais dois filhos: Pedro, em 1975, e Maria Rita, em 1977.

Os anos 70 marcam o aprimoramento técnico vocal de Elis, evidenciado pelas grandes interpretações que a cantora executou ao longo da década. Em 1970, Elis ainda grava um compacto duplo, através do qual o Brasil conheceu a clássica “Madalena”, faixa composta por Ivan Lins e Ronaldo Monteiro.

 

 

Em 1972, a Pimentinha lança o LP “Elis”, cujo repertório traz “Nada Será Como Antes”, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, e “Águas de Março”, de Tom Jobim, imortalizada na voz suave da cantora gaúcha.A parceria da Pimentinha com Tom Jobim, um dos gênios da bossa nova, seria finalmente celebrada no disco “ Elis & Tom”, de 1974, recheado de sucessos como “Corcovado”, “Só Tinha de Ser Com Você” e “Por Toda A Minha Vida”.

O lendário espetáculo “Falso Brilhante”, de 1975, foi um grande marco na carreira de Elis. Depois de meses de ensaio, a cantora estava pronta para oferecer ao público algo mais do que simplesmente cantar e tocar. Toda a sua equipe de palco fez aulas de expressão corporal e sensibilização teatral, que garantiram o sucesso de “Falso Brilhante” como um dos mais bem-sucedidos espetáculos musicais da história do Brasil. O show ainda sairia em disco em 1976, trazendo outra pérola irretocável na voz de Elis: a canção “Como Nossos Pais”, composta por Belchior.

Em 1982, a Pimentinha começava a trabalhar o repertório de um novo disco, que sairia pela gravadora Som Livre. Mas no dia 19 de janeiro, às 11h45, Elis Regina morria aos 36 anos vítima de intoxicação exógena aguda, provocada por overdose de cocaína, tranquilizantes e bebida alcoólica. De repente, o Brasil tinha perdido uma de suas mais ilustres artistas.

 

 

Sua voz, que equilibrava técnica e lirismo com perfeição, e sua atitude performática, que transformava cada show num espetáculo emocionante, influenciaram várias cantoras que viriam nos anos seguintes, de Adriana Calcanhoto a Daniel Mercury, de Leila Pinheiro a Vanessa da Mata. A própria filha da Pimentinha, Maria Rita, se consagrou como um dos nomes mais promissores da atual safra da MPB ao lançar seu primeiro disco em 2003.

 

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