Simplesmente Elis
Por Redação

A primeira vez que o mundo ouviu uma nota vocal de Elis Regina Carvalho Costa foi no dia 17 de março de 1945, em Porto Alegre (RS), quando nascia aos prantos aquela que seria considerada a maior cantora brasileira de todos os tempos.
Desde cedo, Elis Regina, ou "a Pimentinha", como seria apelidada por Vinícius de Moraes, demonstrou afinidade com o universo musical. Já aos 11 anos de idade, em 1956, o dom de cantar aflorava em sua voz doce, que a tornou destaque do elenco fixo do "Clube do Guri", programa infantil da Rádio Farroupilha de Porto Alegre. Três anos depois, a jovem Elis assinou seu primeiro contrato profissional, firmado com a Rádio Gaúcha, para se apresentar no tradicional "Programa Maurício Sobrinho".
Aos 16 anos, Elis Regina canaliza seu talento precoce no álbum "Viva a Brotolândia", de 1961, lançando em seguida o disco “Poema de Amor”, em 1962. No ano seguinte, a revelação gaúcha esbanjou inspiração ao produzir seu terceiro LP, “O Bem do Amor”. Elis conquistava respeito no mundo dos “grandes da música brasileira” e, no final daquele mesmo ano, abandonava o segundo ano colegial na escola Diogo de Souza e com ele os planos de se tornar uma professora, focada em sua ascendente carreira musical.
Em março de 1964, a Pimentinha deixa sua terra natal e se muda para o Rio de Janeiro, onde assina um contrato com a TV Rio para se apresentar no programa “Noites de Gala” ao lado de nomes como Wilson Simonal, Jorge Ben e o Trio Iraquitã. Não demora muito e a jovem cantora é levada por Dom Um Romão, um dos grandes compositores da bossa nova, para as refinadas noites musicais da cidade. Ainda em 1964, a cantora conheceria o produtor Solano Ribeiro, que mais tarde organizaria o I Festival de Música Popular Brasileira na TV Excelsior, vencido pela própria Elis e sua interpretação da canção “Arrastão”, de Edu Lobo e Vinícius de Moraes. Solano foi o primeiro namorado da gauchinha, num relacionamento conturbado que se desmanchou depois de um aborto realizado às escondidas por ela.
Em 1965, a ousada cantora se une a Jair Rodrigues para lançar o álbum “Dois na Bossa”, que foi tão bem recebido pelo público (se tornou o primeiro disco brasileiro a vender um milhão de cópias) que a TV Record decidiu contratar a dupla para estrelar o programa semanal “O Fino da Bossa”. A essa altura, a gauchinha detinha o maior cachê do showbusiness brasileiro.
O ano de 1968 marcou a investida de Elis numa carreira internacional, com apresentações nas TVs sueca, inglesa, holandesa, suíça e belga. Em Paris, naquele mesmo ano, a revelação brasileira se apresentaria duas vezes no Teatro Olympia, uma marca inédita no local, segundo noticiou a revista “Veja” de 23/10/68.
Ao longo do traumático período da ditadura militar no Brasil, instaurada em 1964, o temperamento forte de Elis não a deixou se sentir intimidada e a cantora sempre aproveitava a exposição na mídia para criticar o governo totalitário. Sua interpretação emocionante de “O Bêbado e a Equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc, consagraria esta canção como o “hino da anistia”. O ano de 1969 foi especial para a gaúcha: nasceu João Marcelo, seu primeiro filho com o produtor musical e compositor Ronaldo Bôscoli. O matrimônio firmado em 1967 terminaria em 1972, e dois anos depois, Elis se casaria com o pianista César Camargo Mariano, com quem teve mais dois filhos: Pedro, em 1975, e Maria Rita, em 1977.
Os anos 70 marcam o aprimoramento técnico vocal de Elis, evidenciado pelas grandes interpretações que a cantora executou ao longo da década. Em 1970, Elis ainda grava um compacto duplo, através do qual o Brasil conheceu a clássica “Madalena”, faixa composta por Ivan Lins e Ronaldo Monteiro.

Em 1972, a Pimentinha lança o LP “Elis”, cujo repertório traz “Nada Será Como Antes”, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, e “Águas de Março”, de Tom Jobim, imortalizada na voz suave da cantora gaúcha.A parceria da Pimentinha com Tom Jobim, um dos gênios da bossa nova, seria finalmente celebrada no disco “ Elis & Tom”, de 1974, recheado de sucessos como “Corcovado”, “Só Tinha de Ser Com Você” e “Por Toda A Minha Vida”.
O lendário espetáculo “Falso Brilhante”, de 1975, foi um grande marco na carreira de Elis. Depois de meses de ensaio, a cantora estava pronta para oferecer ao público algo mais do que simplesmente cantar e tocar. Toda a sua equipe de palco fez aulas de expressão corporal e sensibilização teatral, que garantiram o sucesso de “Falso Brilhante” como um dos mais bem-sucedidos espetáculos musicais da história do Brasil. O show ainda sairia em disco em 1976, trazendo outra pérola irretocável na voz de Elis: a canção “Como Nossos Pais”, composta por Belchior.
Em 1982, a Pimentinha começava a trabalhar o repertório de um novo disco, que sairia pela gravadora Som Livre. Mas no dia 19 de janeiro, às 11h45, Elis Regina morria aos 36 anos vítima de intoxicação exógena aguda, provocada por overdose de cocaína, tranquilizantes e bebida alcoólica. De repente, o Brasil tinha perdido uma de suas mais ilustres artistas.

Sua voz, que equilibrava técnica e lirismo com perfeição, e sua atitude performática, que transformava cada show num espetáculo emocionante, influenciaram várias cantoras que viriam nos anos seguintes, de Adriana Calcanhoto a Daniel Mercury, de Leila Pinheiro a Vanessa da Mata. A própria filha da Pimentinha, Maria Rita, se consagrou como um dos nomes mais promissores da atual safra da MPB ao lançar seu primeiro disco em 2003.


