Nordeste Sem Fronteiras – Jackson do Pandeiro
Por Redação

No dia 31 de agosto de 1919, nascia, em Alagoa Grande (PB), aquele que se tornaria o maior ritmista da história da música popular brasileira. José Gomes Filho despontou do interior da Paraíba para o mundo, levando suingue, rimas irreverentes e a mistura de ritmos nordestinos sob o pseudônimo de Jackson do Pandeiro.
A carreira artística de José começou a engatinhar quando o músico, ainda garoto, tocava zabumba no grupo que acompanhava sua mãe, a cantora Flora Mourão. O apelido de Jack foi dado por ela, porque achava o filho parecido com o ator norte-americano Jack Perry. Aos 13 anos, o jovem Jack se muda com a família para Campina Grande, onde passou a ter contato cada vez mais próximo com os cantadores de coco e os violeiros, que animavam as feiras livres e fascinavam o olhar atento do garoto de Alagoa Grande.
Percebendo que levava mais jeito com o pandeiro do que com a zabumba, Jackson viaja pelas redondezas com seu instrumento inseparável em busca de sucesso e reconhecimento. Em sua passagem por João Pessoa, nos anos 40, ele adota o pseudônimo Zé Jack, e consegue certa projeção local tocando em rádios e cabarés da capital paraibana. Já nos anos 50, o músico chega no Recife, no estado vizinho de Pernambuco, onde finalmente alcançaria a fama. Apresentando-se na Rádio Jornal do Comércio, Zé Jack é aconselhado a adotar o nome artístico de Jackson do Pandeiro, que causaria maior impacto e chamaria mais atenção quando fosse anunciado. Foi então que em 1953, aos 35 anos, o paraibano grava seu primeiro compacto, que trazia o contagiante xote “Sebastiana”, de Rosil Cavalcanti. Nessa gravação, já era possível notar características que permeariam toda a obra de Jackson, como as improvisações de vocalizações com tempo variado numa mesma música. Com o enorme sucesso do rojão “Forró no Limoeiro”, de Edgar Ferreira, o ritmista se firma como um dos grandes fenômenos musicais no Norte e Nordeste do país, conquistando cada vez mais admiradores, encantados com a criatividade, a virtuosidade e a ousadia daquele genuíno artista popular.
Já desfrutando do sucesso como revelação musical nordestina, Jackson do Pandeiro conhece Almira Castilho de Albuquerque, uma ex-professora que cantava mambo e dançava rumba no Recife. Os dois iniciam um relacionamento amoroso, e ela passa a acompanhá-lo em suas performances, revelando uma admirável desenvoltura nos palcos. Os dois se casariam em 1956 e iriam juntos ao Rio de Janeiro, onde fizeram apresentações em programas de TV e rádio, com passagem em São Paulo. Naquele momento, o Brasil inteiro se deliciava com o Rei do Ritmo e seu estilo único – uma mistura bem-humorada de xote, xaxado, baião, coco, rojão, samba e frevo, que levava a essência da cultura do Nordeste para o resto do país. Não é à toa que, ao lado de Luiz Gonzaga, a majestade nordestina da música brasileira, Jackson contribuiu bastante para a nacionalização de elementos típicos do cancioneiro nordestino.

Depois de firmar seu sucesso em nível nacional com sucessos de grande apelo popular como a embolada “Um a Um” e “O Xote de Copacabana”, o Rei do Ritmo decide morar no Rio de Janeiro com sua esposa Almira, e acaba assinando um contrato com a Rádio Nacional. Na Cidade Maravilhosa, o paraibano demonstra toda a sua versatilidade ao gravar marchinhas carnavalescas como “Me Segura que Eu vou Dar um Troço”, hit no carnaval de 62. Com seu inseparável pandeiro e seu talento inigualável, Jackson conseguiu unir com maestria a malandragem do samba com o suingue das emboladas e dos cocos.
Com o sucesso absoluto nos quatros cantos do Brasil, Jackson e Almira chegaram até a fazer algumas participações em filmes de projeção nacional como “Tira a mão dali”, “Cala Boca Etevilna” e “Minha Sogra É da Polícia”.
Um dos maiores sucessos da discografia do Rei do Ritmo foi “Chiclete com Banana”, que na década de 70, em plena época do movimento tropicalista, foi regravada por Gilberto Gil no disco “Expresso 2222″. A canção, composta por Jackson e o parceiro Gordurinha, defende a diversidade da música nacional (“quero ver o Tio Sam numa batucada brasileira”, diz um dos versos). Outra composição da dupla, o samba-coco “Meu Enxoval”, também seria imortalizada na história da música popular brasileira.
Depois de se desentender e se divorciar de sua esposa Almira, sobreviver à explosão da Jovem Guarda no cenário musical e ter sua genialidade redescoberta pelos artistas da Tropicália, Jackson do Pandeiro atravessa os anos 70 com shows pelo Brasil, mas apesar da apreciação da crítica especializada, não consegue se firmar como astro da MPB, tendo seu nome ligado apenas aos períodos de festas juninas. Em 1981, grava o último de seus mais de 30 álbuns em 29 anos de carreira: “Isso é que é forró”. No ano seguinte, mais precisamente no dia 10 de junho de 1982, o Rei do Ritmo morria em decorrência de uma embolia pulmonar e cerebral em Brasília, em plena turnê pelo país.

“Costumo sempre dizer que o Gonzagão é o Pelé da música e o Jackson, o Garrincha”, disse certa vez o músico pernambucano Alceu Valença. O legado musical deixado pelo Rei do Ritmo, além de ter exportado a cultura nordestina para o mundo, influenciou muitos artistas que estão na ativa, como Lenine, Paralamas do Sucesso, Chico Buarque, Elba Ramalho, Chico César, Leila Pinheiro, Tom Zé e Geraldo Azevedo. Todos esses nomes já regravaram canções de Jackson, que desde seu falecimento é lembrado com carinho especialmente pelos paraibanos, orgulhosos da trajetória brilhante de seu conterrâneo ilustre.



