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4 de novembro de 2010, às 09:10h

Nordeste Sem Fronteiras – Marinês

Por Redação

 

 

 

Inês Caetano de Oliveira veio ao mundo em 16 de novembro de 1935 na cidade de São Vicente Férrer, sertão do estado de Pernambuco, e já trazia música no sangue – seu pai, Manoel Caetano de Oliveira, era seresteiro, e sua mãe, Josefa Maria de Oliveira, era cantora de igreja. Logo na infância, a pequena Inês se mudou com a família para Campina Grande, na Paraíba, e foi lá que a garotinha desenvolveu seu gosto pela música e começou a profissionalizar seu talento.

 

 

 

Desde cedo, Inês se encantou com a obra de Luiz Gonzaga, o maior nome da música regionalista nordestina. Veiculadas pelas difusoras de Campina Grande, canções como “Asa Branca”, “Qui Nem Jiló” e “No Ceará Não Tem Disso Não” apresentavam à menina o universo do imaginário sertanejo e da cultura popular ao qual ela tanto se identificava. A partir dos 10 anos, Inês começou a estimular sua paixão pelo canto se inscrevendo em concursos locais de calouros. Para fugir da vigilância dos pais, a garota participava das competições com o nome Maria Inês. Certa vez, ao ser anunciada como Marinês por um locutor, a jovem acaba por adotá-lo como nome artístico, que carregaria por toda a vida.

 

 

 

Após largar os estudos por falta de dinheiro, Marinês se arrisca no mundo das rádios, confiante no potencial vocal que aflorava em sua mocidade e levando consigo um currículo bem-sucedido de participações em concursos musicais. Ingressando na tradicional rádio Voz da Democracia, do bairro da Liberdade, Marinês logo conquista o papel de locutora. A partir de então, ganhando fama e reconhecimento no meio, a cantora passa pelas rádios A Voz de Campina Grande, Cariri e Borborema, demonstrando talento e desenvoltura com seu canto afinado. Em 1952, inicia um relacionamento amoroso com o sanfoneiro Abdias Farias, com quem se casa tempo depois e forma uma parceria profissional que seria batizada de “Casal da Alegria” por uma apresentadora da Rádio Difusora de Alagoas. Ao lado do marido, a aprendiz de Luiz Gonzaga seguia os passos do mestre, levando forró e xaxado para fora dos limites da Paraíba, contagiando o Nordeste com seu carisma.

 

 

 

Convidados para trabalharem na Rádio Iracema, de Fortaleza, Marinês e Abdias viajam ao Ceará, onde conhecem o zabumbeiro Cacau, um velho companheiro de Luiz Gonzaga que procurava oportunidade para ganhar dinheiro com o seu instrumento. Assim, no início dos anos 50, Cacau se une a Marinês e Abdias para formar a Patrulha de Choque do Rei do Baião, destinada a explorar o repertório de grandes nomes da música regional como Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. A partir de então, o trio forrozeiro ganha a região: Marinês no triângulo, Abdias na sanfona e Cacau na zabumba passaram a fazer, espontaneamente, apresentações nas cidades nordestinas onde o Rei do Baião tocaria. A fama da entrosada Patrulha de Choque chegaria aos ouvidos do próprio homenageado, ao qual foi descrito que Marinês era um “Gonzaga de saias”.

 

 

 

O encontro entre Gonzagão e o trio não demoraria a acontecer: a cidade de Propriá, no Sergipe, foi palco do inesquecível momento em que aquela sonhadora cantora de forró conheceria pessoalmente sua maior influência artística. Marinês recorda: “Luiz Gonzaga já estava sabendo que tinha essa cangaceirinha, como ele me chamava, cantando as músicas dele. Ele disse: eu vou lhe ensinar a dançar xaxado porque eu estou precisando de uma rainha do xaxado. Aí ele foi dançar comigo”. Daquele momento em diante, o Rei do Baião se comprometeria a apoiar a Patrulha de Choque, divulgando o trabalho do trio pelo Brasil afora.

 

 

 

 

 

 

Além de conhecer e se apresentar pelas rádios do país ao lado do ídolo, Marinês é oficialmente coroada Rainha do Xaxado pelo próprio Rei do Baião, e a Patrulha de Choque se incorpora temporariamente ao grupo “Luiz Gonzaga e Seus Cabras da Peste”. Em 1957, ao lado de seus inseparáveis companheiros Abdias e Cacau, a cantora grava seu primeiro disco sob o nome de “Marinês e Sua Gente”, com o qual se consagraria definitivamente como um dos maiores nomes do forró e da música nordestina. A sequência de sucessos construiu uma discografia impecável ao longo de sua trajetória artística: canções como os xotes “Peba na Pimenta” e “Pisa na Fulô”; os baiões “Aquarela Nordestina”, “Perigo de Morte” e “Saudade de Campina Grande”; o xaxado “História de Lampião”; a polca “Chegou São João”; os cocos “Gírias do Norte” e “Cadê o Peba”; e as modas de roda “Marinheiro” e “Meu Beija-Flor” encantaram plateias de todo o Brasil, inclusive o fidelíssimo público nordestino, que lotava cinemas, estações de rádio e auditórios para ver a Rainha do Xaxado cantar músicas contagiantes que entrariam para o cancioneiro popular regional.

 

 

 

Atravessando a produtiva década de 60 com participações em filmes e prêmios importantes – como os troféus Euterpe de Melhor Cantora Regional e Melhor Vendagem pelo LP “Outra Vez Marinês”, de 1961 -, a cantora chega aos anos 70 sustentando uma prestigiada parceria com o poeta e compositor Antônio Barros, que colaboraria com uma média de quatro músicas por álbum, como o forró “Na Peneira do Amor” e “Amor Sem Fim”. Outra boa surpresa da década foi o flerte de Marinês com o carimbó, ritmo oriundo do Norte brasileiro que fez grande sucesso por todo o país. “Carimbó do Marajó”, “Carimbó da Vovó Sinhá” e “No Laço do Carimbó” foram canções que adicionaram o suingue nortista ao já eclético repertório da Rainha do Xaxado. Foi em 1976 que Marinês se separou de Abdias, mas os dois continuariam sua parceria profissional nos discos seguintes.

 

 

 

 

 

 

Os anos 80 seriam marcados por mais sucessos de enorme popularidade – como o álbum “Bate Coração” – e parcerias ilustres – como Zé Ramalho e Gilberto Gil. A década seguinte é marcada pelo disco-tributo “Marinês e Sua Gente”, que comemorou 50 anos de carreira da Rainha do Xaxado com produção da aluna Elba Ramalho e reuniu duetos com 13 grandes artistas brasileiros, como Dominguinhos, Ney Matogrosso, Lenine, Chico César, Genival Lacerda, Margareth Menezes, Alceu Valença e Moraes Moreira. Já em 2005, a cantora seria homenageada novamente com um super-projeto: o CD “Marinês Canta a Paraíba” teve patrocínio do governo paraibano e trazia, além de canções com participação da Orquestra Sinfônica da Paraíba, um libreto com imagens e depoimentos de nomes como Paulinho da Viola, Gilberto Gil e Tetê Espínola.

 

 

 

 

 

 

Maria Inês Caetano de Oliveira morreria aos 71 anos em 14 de maio de 2007, após sofrer um acidente vascular cerebral, num hospital do Recife. Artistas de todas as vertentes da música popular brasileira lamentaram profundamente a perda. Gilberto Gil, então Ministro da Cultura, divulgou nota no mesmo dia: “O Brasil perdeu hoje sua rainha do forró, a primeira grande cantora nordestina que aparece nos anos 50, inaugurando um ciclo de ouro da “voz feminina na música do Nordeste”.


 

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